Pintando o sete: Dias de glórias para as nanicas


Ter uma equipe na Fórmula 1 não é uma das tarefas mais fáceis. Em uma categoria com gastos tão proibitivos, fica difícil competir, ainda mais com equipes de fábrica. Foram muitos os aventureiros que tentaram a sorte na categoria e pouquíssimos que conseguiram. Williams e McLaren, por exemplo, tiveram muitas dificuldades no início, mas se estabilizaram e seguem até hoje.

Porém a realidade mostra que chegar até mesmo a um bom resultado demanda muito esforço e uma dose incrível de sorte. No post de hoje mostro sete situações tidas como miraculosas envolvendo equipes acostumadas com situações como pré-qualificação ou limite de 107%, ou ainda a última fila, mas que terminaram pelo menos uma vez entre os melhores.

Marussia (Jules Bianchi – GP de Mônaco de 2014)

Marussia comemora muito seus primeiros pontos, conquistados por Jules Bianchi (Foto: Divulgação)

Salut Jules

Começo pelo caso mais fresco na memória. A Marussia (ex-Virgin e atual Manor) era uma das três equipes que entrou na seleção feita pela FIA em 2010 e que até hoje dá pano para manga. A HRT morreu em 2012, enquanto a Caterham (ex-Lotus verde) iria só até o fim de 2014. Não preciso reforçar que o caminho para o trio era bem complicado.

Até a corrida do principado no ano passado, nenhum piloto conseguiu levar algum dos seis carros mais lentos do grid aos pontos. No entanto, as coisas começaram a funcionar para a escuderia anglo-russa.

As coisas começaram complicadas para Bianchi, que largou de 21º, depois de trocar o câmbio. Para piorar, Bianchi alinhou errado no grid e tomou uma punição de 5 segundos acrescidos ao tempo (seja nos boxes, seja na pista).

No entanto a prova foi se desenrolando e muitos adversários começaram a ter problemas: Pastor Maldonado nem largou, Sergio Perez ficou nos pneus na primeira volta. Sebastian Vettel, Jean-Eric Vergne e Danil Kvyat ficaram pelo caminho com a fraqueza do motor Renault.

E a sorte foi aumentando com as trapalhadas dos adversários. A dupla da Sauber, Adrian Sutil e Esteban Gutierrez, bateram (o mexicano de forma besta) e ficaram pelo caminho. A Williams de Valteri Bottas teve o motor estourado. E Kimi Raikkonen, em dia pouco inspirado, ficou atravessado na curva do Grande Hotel atrapalhando a sua corrida e a de Kevin Magnussen, da McLaren.

Jules Bianchi conquista primeiros pontos da história da Marussia, em Mônaco (Foto: Getty Images)

O milagre no principado

Com toda essa bagunça, Bianchi saltou para um incrível oitavo lugar. Mas não apenas por méritos alheios. O francês fez uma bela ultrapassagem em cima de Marcus Ericcson, da Caterham e estabilizou-se em oitavo, posição que cruzaria ao fim da prova.

No entanto, lembram-se da punição no começo? Sim, a punição de cinco segundos foi acrescida ao tempo final. Mesmo assim, o francês perdeu posição apenas para o compatriota da Lotus, Romain Grosjean. Com o nono posto. Bianchi somou os dois únicos pontos da história da Marussia na Fórmula 1.

O feito permitiu a permanência da equipe para 2015, ao colocá-la em nono nos construtores, a frente da Caterham e da Sauber, garantindo um pouco mais de dinheiro da FOM. Infelizmente este acabou sendo o único resultado relevante de Jules, que deixou este mundo nove meses após o acidente em Suzuka. Mas o feito dele está na história da categoria.

Osella (Piercarlo Ghinzani – GP de Dallas de 1984)

A temporada de 1984 teve duas corridas nos Estados Unidos. Uma em Detroit e outra em Dallas. A corrida no meio-oeste estadunidense ficou marcada como uma das provas mais bizarras da categoria, muito por conta da pista localizada no Fair Park.

Com um calor infernal que chegava aos 40º C e um asfalto que se desmanchava a olhos vistos, os pilotos sofreram uma barbaridade. A corrida também é lembrada pelo desmaio de Nigel Mansell na última volta, ao tentar empurrar sua Lotus até sua linha de chegada.

Ao todo, 18 carros ficaram pelo meio do caminho. De todos que largaram, apenas sete (excluindo Mansell) viram a meta final. Entre eles, a Osella de Piercarlo Ghinzani

Até aquele dia, a equipe italiana havia somado três pontos com o quarto lugar de Jean-Pierre Jarier no GP de San Marino de 1982, em uma corrida de apenas 14 carros.

A simpática equipe italiana teve seu dia para festejar

Ghinzani, o piloto símbolo da Osella Squadra Corse durante a década de existência da escuderia, escapou ileso de todos os problemas e conseguiu levar seu carro ao quinto posto, herdando a posição de Mansell.

Foram os únicos pontos da carreira de Ghinzani e os últimos da Osella. Por isso, o GP texano acabou entrando na história do Lado B da Fórmula 1.

AGS (Roberto Moreno – GP da Austrália de 1987)

A Automobiles Gonfaronnaises Sportives, ou simplesmente AGS, foi uma equipe francesa que esteve na F1 entre 1986 e 1991, sobrevivendo sempre com muitas dificuldades. Ao longo de sua jornada foram dois suados pontos. Ambos bem celebrados.

Bandeira Verde

Mais um milagre de Moreno

Citaremos aqui o primeiro dos casos. O ano era 1987. A AGS tinha dificuldades para classificar pois além da pouca grana para desenvolver um carro competitivo, ainda tinha o inexpressivo Pascal Fabre para guiar o bólido cuja pintura parecia um pacote de balas vendido um macabro parque de diversões.

Para isso, a equipe francesa defenestrou o coitado do Fabre e recorreu àquele que seria a tábua de salvação das nanicas por um bom tempo: Roberto Pupo Moreno.

O brasileiro só não topou antes a tarefa pois disputava o campeonato de Fórmula 3000 e esperou até o fim da temporada para correr no Japão e na Austrália.

Em Suzuka, pouco pôde fazer, mas em Adelaide, Moreno foi seguro ao se manter a frente de outras equipes menores e de manter o carro até o fim. Faltou pouco para pontuar, chegou em sétimo, numa época em que seis pontuavam.

Mas os deuses do automobilismo estavam generosos com a pequena escuderia gaulesa. A Lotus de Ayrton Senna, o segundo colocado, apresentou uma irregularidade nos freios que lhe custou a desclassificação. Com isso, Moreno foi alçado ao sexto posto e a AGS pôde finalmente celebrar (e celebraram muito) o ponto ganho.

Rial (Christian Danner – GP dos EUA de 1989)

A Rial Racing foi uma equipe alemã que chegou à categoria em 1988. Teve performances razoáveis no ano de estreia com o mito Andrea de Cesaris e com o carro projetado por Gustav Brunner, ex-Ferrari. No entanto o dono da equipe, Gunther Schimidt, era um cara enfezado e o ambiente da equipe era uma bagunça.

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Danner foi quem teve o melhor aproveitamento o carro

A coisa ficou mais latente em 1989. Com dois carros, uma ciranda de pilotos e de funcionários rolou na equipe germânica, com seis corredores em seus acentos: Christian Danner, Volker Weidler, Pierre-Henri Raphanel, Gregory Foitek e Bertrand Gachot.

Destes, o único que fez algo relevante na escuderia foi Danner. O piloto de Munique foi o primeiro campeão da F-3000, em 1985, mas só teve oportunidades em equipes pequenas (Arrows, Osella, Zakspeed e a própria Rial), além de sofrer nas nanicas da Indy e disputar um ano no ITC. Hoje é um dos comentaristas de Fórmula 1 na televisão alemã RTL.

A corrida que o credencia a esta lista foi o GP dos Estados Unidos de 1989. A corrida foi a estreia do circuito de rua de Phoenix.

Lembram dos problemas em Dallas 1984? A situação não era muito diferente na cidade encravada no deserto do Arizona. Um sol para cada um naqueles dias de fim de primavera no Hemisfério Norte e um circuito que desagradava os pilotos e as equipes.

Sobrevivendo ao inferno de Phoenix

A corrida aconteceu, mas foi cheia de quebradeira para todo lado. Muitos carros quebraram e ficaram pelo caminho. Ao término de 75 voltas das 81 previstas, apenas sete carros viram a bandeira de chegada. Danner conseguiu levar seu ARC2 sem sustos a um excelente quarto posto, a frente da Benetton de Johnny Herbert e da Williams de Thierry Boutsen.

O resultado não foi o suficiente para a equipe sobreviver após o término daquele ano, mas a escuderia alemã até tinha certo potencial, que não foi convertido em coisa melhor pela desordem típica de uma nanica.

Minardi (Christian Fittipaldi – GP da África do Sul de 1993)

Não poderíamos deixar de fora a equipe símbolo das nanicas da Fórmula 1. Aquela que batalhou por 20 temporadas, sempre em busca de pontinhos mais mirrados. A Minardi tem que ser citada.

Sim, a tradicional escuderia de Giancarlo Minardi teve pontuações e atuações histórias em um outro momento e é difícil selecionar uma só. Destaco esta ocasião que foi celebrada como um título.

Um fim de semana feliz na casa minardista

Christian Fittipaldi, filho de Wilson Fittipaldi Jr. e sobrinho de Emerson, chegou a F1 após vencer a F3000 em 1991. Estreou em 1992 pela Minardi e conseguiu dois suados pontos em Suzuka, quase no fim do ano. Em 1993, a esperança era que a equipe pudesse fazer uma campanha mais sólida. E o começo não poderia ser melhor.

Na abertura da temporada, em Kyalami (a última corrida em solo sul-africano), a Minardi não prometia muito, apesar da boa classificação de Christian (13º). Mas a corrida mostrou-se bem movimentada, com um festival de quebras e acidentes vitimando muita gente.

Christian ficou sempre nas posições intermediárias brigando muito com JJ Letho, da estreante Sauber. Na reta final da prova, o minardista superou o finlandês e seguiu até o fim.

Apenas cinco carros viram a bandeirada final. A Williams de Alain Prost, a Mclaren de Ayrton Senna, a Ligier de Mark Blundell, além de Fittipaldi e Letho.


Ir aos 4:20

Apesar de ser o penúltimo na pista, a equipe italiana esteve em êxtase, com o resultado brilhante obtido pelo brasileiro. Uma fração daquilo que chamamos de felicidade. Era isso que a Minardi buscava.

Larrousse (Aguri Suzuki – GP do Japão de 1990)

Gérard Larrousse teve uma carreira bem sucedida no endurance e uma passagem sem brilho pela F1 como piloto. Mas o francês resolveu voltar a categoria como dono de equipe, através de um acordo com a fabricante de chassis Lola, após o fracasso de Carl Haas com sua equipe em 1986.

Entre 1987 e 1994, a Larrousse sempre militou do meio para o fim do pelotão, ora tentando classificar-se para as corridas, ora para buscar uns pontinhos.

Em 1990, a escuderia francesa teve desempenho interessante, somando bons pontos e teve como auge o Grande Prêmio do Japão.

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Um bólido decente e uma festa japonesa a caminho

A corrida, como devem saber, ficou marcada pelo troco de Senna em cima de Prost na largada e pela dobradinha Piquet-Moreno pela Benetton. Mas para um piloto japonês também marcou seu nome na história.

Aguri Suzuki teve uma corrida dos sonhos. Já havia se classificado bem, com o décimo tempo (que virou nono com o forfait de Jean Alesi, após um forte acidente do francês nos treinos). Logo de cara foram duas posições com o entrevero Senna-Prost e mais uma na volta seguinte com a rodada de Gerhard Berger.

Com um bom ritmo de corrida, Suzuki superou as Williams de Riccardo Patrese e Thierry Boutsen, estabelecendo-se em quarto. Nada mal.

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O justo cumprimento pela atuação

E para melhorar, Nigel Mansell, que liderava a prova, teve um problema na transmissão quando saía dos boxes e abandonou após socar comicamente o volante. Com isso, Suzuki estava em um honroso terceiro lugar.

No alegre pódio, Piquet e Moreno tiveram a companhia do piloto nipônico, para alegria da torcida que lotava o autódromo. Um belo desfecho para uma corrida polêmica. E a confirmação da melhor temporada da história da Larrousse, que fechou o ano em sexto nos construtores.

Onyx (Stefan Johansson – GP de Portugal de 1989)

A Onyx foi uma das equipes estreantes da temporada de 1989 da Fórmula 1, que contava com o incrível número de 20 escuderias e 39 carros para competir ao longo da temporada. A escuderia fundada por Mike Earle e Greg Field passou pelas categorias de base em busca de experiência até ter a sua chance.

Para pagar a conta, eles tiveram que recorrer a um dos seres mais excêntricos que passaram pela Fórmula 1: Jean-Pierre Van Rossem, belga, economista, escritor, filósofo e guru. O sujeito era o responsável por criar uma empresa chamada Moneytron, que possuía um sistema computacional que previa as ações das bolsas de valores pelo mundo, gerando lucros absurdos para os investidores.

Sabe o que é Jean-Pierre Van Rossem puto da vida?

Jean-Pierre Van Rossem

Com essa grana, a equipe mostrou bom potencial em alguns momentos do campeonato. Somou dois pontos em Paul Ricard, mas oscilava bastante. Van Rossem prometia mundos e fundos, mas as coisas não acontecia. (depois de largar a equipe no fim do ano, o sujeito acabou preso pelas falcatruas da Moneytron por um ano, mas logo foi solto e fundou seu próprio partido político, chegando até a ser eleito deputado na Bélgica, é mole?)

Aí vei o fim de semana em Estoril, Portugal. O experiente sueco Stefan Johansson conseguiu uma excelente classificação, partindo de 12º.

Johansson à frente da Benetton de Emanuele Pirro

Ousadia e alegria para a escuderia anglo-belga

Johansson começou bem, chegando a oitava posição na décima volta. A Onyx arriscou em uma estratégia ousada de não parar (dava naquela época) e confiar no pouco desgaste de pneus. O sueco ainda teve um duelo de nove voltas com a McLaren de Alain Prost após a parada do francês, mas não suportou muito.

Com todo mundo parando, Johansson se viu em quinto e depois do festival de lambanças de Nigel Mansell (entrada torta nos pits, engate da marcha a ré, desclassificação e abalroamento em Ayrton Senna), o piloto da Onyx estava em um inacreditável terceiro posto!

Mas a vida do sueco não estava muto fácil. As Williams de Boutsen e Patrese vinham babando. O italiano passou facilmente pelo carro lilás número 36 e o belga vinha encostando. Mas, quase que simultaneamente, os dois carros da equipe de Tio Frank tiveram problemas de superaquecimento do motor e pararam.

Festa!

A festa de Johansson no pódio em Estoril

Com isso, bastou levar o seu bólido até o fim (mesmo com o combustível “no cheiro”) e Stefan Johansson conseguia um inacreditável pódio em solo português, chegando atrás apenas da Ferrari de Gerhard Berger e da McLaren do futuro campeão daquele ano, Prost.

Foi a única vez da excêntrica escuderia e o último de Johansson. O gosto da champanhe não poderia sem mais gostoso.

Oitava pincelada: Minardi (Pierluigi Martini – GP de Portugal de 1989)

Estou repetindo uma equipe e uma corrida, mas esta atuação merece a menção honrosa.

A temporada de 1989, em termos de desempenho na pista, foi o melhor ano da história da Minardi. Até mesmo o espanhol Luís Perez Sala conseguiu pontuar. Mas quem teve brilho o eterno símbolo da equipe italiana: Pierluigi Martini.

Martini em grande dia

A corrida em Estoril foi bem positiva para a Minardi. Martini conseguiu classificar-se em quinto, atrás apenas dos carros da McLaren e da Ferrari. O italiano era o “melhor do resto”, superando equeipes bem mais estruturadas, como Williams e Benetton.

Martini tentou se manter na zona de pintos a maior parte do tempo e foi subindo de posições conforme aos pits. Na volta 40, o grande momento: uma Minardi LIDERAVA A CORRIDA!

Foi uma liderança bem curta. Naquele momento, Mansell estava nos boxes e Berger conseguiria a ultrapassagem no fim da reta dos boxes, mas foi Martini quem cruzou a linha de chegada na frente, o que se configura como volta liderada.

A Minardi foi mais conservadora e fez sua parada. Martini escapou dos percalços e chegou em quinto. O feito pode ter sido ofuscado pelo resultado da Onyx de Johansson, mas a atuação do conjunto italiano entrou para a história, sem dúvidas.

Fontes: A Mil por Hora (Rodrigo Mattar), Bandeira Verde e Continetal Circus

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Sei que existem outras tantas histórias a serem registradas. Se alguém mais lembrar de outros grandes feitos do lado B da Fórmula 1, pode deixar nos comentários! Abraço!

Publicado em outubro 22, 2015, em Automobilismo, F1, Pintando o sete. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. João Vítor Dieter

    Esqueceu da Minardi no GP dos EUA de 2005

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