Insanidade nas pistas: inimiga da segurança; amiga do espetáculo


A Fórmula 1 tem pela primeira vez em 2015 um debate sobre a atitude de um piloto após um acidente. Não deixou de ser surpresa que o nome envolvido foi justamente do corredor mais jovem do grid, o holandês Max Verstappen.

Como já foi dito e provado por vários lugares, inclusive aqui no nosso blog, foi um erro sim do novato da Toro Rosso, que acertou a Lotus de Romain Grosjean e se espatifou no soft wall. No entanto, acredito piamente que as críticas ao moleque passaram do ponto, tornando até maldosas.

Foto: Motorsport.com

O lance da discórida

O que aconteceu depois disso foi de um Verstappen bem solto, ainda renegando a culpa pelo ato e até respondendo aos críticos com veemência, incluindo Felipe Massa, após o brasileiro ter dado o seu pitaco em relação ao tema.

Diante disso, há uma grande discussão sobre a postura tomada pelo jovem holandês. Certamente os fãs são ávidos por um piloto arrojado dentro e fora das pistas e querem vê-lo em ação. Contudo, há uma corrente que clama pela segurança para evitar transtornos na pista e fora dela, para o circo da F1 não virar a Casa da Mãe Joana.

Grupos: arrojo X cérebro

Esse é um cenário bem comum na F1 ao longo da história. Entre os mais de 800 homens e mulheres (se alguém souber o número atualizado, diga nos comentários) que estiveram em uma atividade da categoria, é possível encaixá-los em três grupos seletivos, pelo menos os mais notórios destes.

Nota do autor: Fiz esta divisão recordando um antigo e interessante texto do F1 Corradi.

-O grupo 1 são os pilotos extremamente arrojados e muitas vezes inconsequentes. Conseguem um ou outro feito incrível, mas são tratados como sujeitos desastrados e paranoicos, que muitas vezes terminam no muro. Desta turma, o expoente máximo é Gilles Villeneuve. Nomes como Ronnie Peterson, James Hunt, Vittorio Brambilla, Nigel Mansell, Andrea de Cesaris e Juan Pablo Montoya são adequados à lista.

-O grupo 2 é formado pelos pilotos conservadores. Aqueles que fazem corridas mais cerebrais, catedráticas, esperam o momento certo para agir. As corridas são como um jogo de xadrez, em que cada movimento é importante. Não precisa se expor desnecessariamente.

Dá para incluir quase todos os principais campeões do mundo entre as décadas de 1950 e 1980 (Juan Manuel Fangio, Graham Hill, Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda, Alain Prost e Nelson Piquet), nem todos chegam a gloria máxima, mas a maior parcela dos campeões do mundo sai daí.

A relação funciona assim até hoje e pode ser vista em muitas categorias de acesso. Os transloucados fazem o show, mas muitas vezes acabam pagando o pato pela volúpia e perdem, justamente para turma conservadora. Basta ver que dos citados na primeira lista, apenas dois foram campeões, e ainda assim uma vez cada e em circunstâncias bem excepcionais.

Imagem: F1 Corradi

Grupo 3, Grupo 2, Grupo 1, respectivamente

Mas existe um terceiro grupo:

-O grupo 3, que seria de um piloto que junta as duas características. Ele pode não ser tão arrojado como um do grupo 1 e nem tão cauteloso como do grupo 2, mas ele possui características dos dois e consegue derrotá-los se tiver a soma perfeita, e se um talento descomunal.

O primeiro a surgir assim foi Jim Clark. O cara arrepiava geral nos anos 1960. Quem vivenciou essa época garante que não houve ninguém melhor do que o escocês voador na história do automobilismo mundial. A sua história acabou em um acidente fatal numa corrida de F2 em Hockenheim, no ano de 1968.

O próximo que surgiu com essa fusão de características vinha das terras brasileiras. Sua obstinação incomodou todos os adversários. Os do grupo 1 precisariam de uma máquina quase perfeita para ter chance de derrotá-lo. Os do grupo 2 precisaram mostrar talento e fibra para sair da zona de conforto e derrotar aquele magrelo insolente.

Mas, em condições normais, não dava para derrotá-lo. Ayrton Senna surgia para refazer os parâmetros do piloto com a melhor combinação de arrojo e inteligência. Ainda que não fosse o número 1 nesses quesitos em relação aos principais rivais, a combinação de fatores o colocava em um patamar até superior aos dos demais.

Assim como Clark, Senna se foi num acidente. A diferença é que havia alguém para seguir com o legado do grupo 3 após a perda do brasileiro. Michael Schumacher montou o maior império de um piloto na história da Fórmula 1 moderna unindo o melhor dos dois grupos, nos momentos essenciais.

Nos 20 anos entre a estreia de Senna e o último título de Schumacher, a formação de pilotos mudou bastante, também influenciada com as transformações que a sociedade passou nesse período. Os corredores que vieram depois aprenderam que precisaria ter um pouco de tudo para ser um piloto bem reconhecido.

A safra atual nos seus grupos

Entre os 20 pilotos que estão atualmente na categoria. Dá para claramente classificar alguns deles, levando em conta os que já estão há alguns anos no certame.

Para o grupo 1, o nome mais notório é o de Pastor Maldonado. O próprio Romain Grosjean e também Sergio Perez são cotados para essa turma. Já o grupo 2 leva a maior porcentagem: Jenson Button, Nico Rosberg e Kimi Raikkonen são os mais evidentes.

Três nomes do grid atual podem possivelmente ser inclusos no grupo 3. Fernando Alonso, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel. Embora o inglês esteja mais para o primeiro grupo e os demais para o segundo, vejo neles características mais próximas daquelas mostradas por Clark, Senna e Schumacher. E até podem figurar nesta lista. Depende de mais reflexão no tema.

Imagem: Motorsport.com

Para qual grupo ele vai?

Voltando ao assunto inicial do nosso post, Max Verstappen acha que se enquadraria no grupo 3, diante da expectativa posta pela Red Bull e da forma prodigiosa como debutou. No entanto, o caminho está cheio de armadilhas. Ainda precisa provar muita coisa e ter a mente preparada para tudo.

O arrojo é um item importante para a formação de um piloto, até porque o automobilismo é um esporte perigoso e o risco faz parte da modalidade. No entanto, quem compete sabe que precisa ter um mínimo de raciocínio para não sair fazendo besteiras a rodo.

A prova mais nítida disso aconteceu em 31 de maio de 2015, em Monza, quando a Fórmula 3 Europeia teve que encerrar a corrida antes da hora pela total afobação dos pilotos no grid. O fim de semana foi marcado por uma quantidade absurda de penalizações, batidas e confusões em todos os pelotões.

Confira nos vídeos abaixo a carnificina: (Destaque para 12:20 do segundo vídeo)

Convém lembrar que foi exatamente desta categoria, que o filho de Jos (um conhecido membro do grupo 1) veio para correr na F1 para este ano. A juventude do esporte a motor dá sinais de certa ansiedade e de volúpia exagerada.

Neste momento, fica difícil achar pilotos mais cerebrais, especialmente na base. Mas a F1 sempre foi de podar alguns pilotos para tornar-se mais conservadores. Na maioria das vezes, o piloto acaba perdendo parte da sua identidade e vira mais um no grid.

Caso clássico de Riccardo Patrese, um piloto que surgiu como audacioso, mas depois de carregar (injustamente) a culpa pelo acidente que matou Peterson, acabou por tornar-se um “burocrata” ao volante ao longo da carreira.

A F1 aceita pilotos de todos os estilos. O mundo ideal seria ter 20 corredores no estilo de Clark, Senna ou Schumacher, mas isso é praticamente impossível.

Os fãs não querem uma categoria com duas dezenas de conformistas, esperando apenas uma falha do oponente para subir no grid. Mas não adianta deixar os carros “mais sofisticados” do mundo nas mãos de um bando de lunáticos, pois isso pode até ser fatal.

O equilíbrio entre os dois grupos em um grid cheio é uma combinação ideal. E fica melhor ainda se tiver algum piloto que una as duas características para bagunçar as coisas, no bom sentido.

Quanto ao Verstappinho, fica uma questão: Será ele do grupo 1, 2 ou 3?

A única certeza que digo é que só o tempo dirá…

Publicado em junho 6, 2015, em Automobilismo, F1 e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Excelente e variado post, cheio de informações interessante e instigantes. Bravo! Lembrou uma discussão ococrrida aqui no começo de 2012, se não me engano, quando baixei o sarrafo no finado Schumacher e na excessiva parafernália tecnológica dos F1, desagradando alguns amigos virtuais seus, Eduardo. Parece que a nova geração decidiu sentar o pé de novo. Eu acho uma boa mesmo. Sem procurar não se acha uma brecha mesmo e, como dois corpos não podem ser alocados no mesmo espaço, muitas vezes acontecem os tais “previstos imprevistos”. Quanto a Verstappen, tomara que seja do grupo 3!

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