O coração, o cérebro, o pulso sanguíneo vs uma máquina fantástica e a essência do caos


por Marco Bidart

O coração é ao mesmo tempo um órgão vital do corpo do ‘animal homem’ e a mais bem sucedida metáfora da sua mente, uma alegoria da simbiose entre ego e mundo na tentativa de intermediar os conflitos do id e do superego. Essa rústica válvula de empuxo da circulação sanguínea é um paradoxo da imaginação humana por atribuir a uma simples bomba de tecidos rudimentares uma unidade filosófica tal que confunde à fantástica máquina de neurônios movida a impulsos elétricos na hora de decifrar seus códigos evidentemente inexistentes.

...nossa mais antiga ruptura...

Ora, apesar de habitarem o mesmo ‘chão de fábrica’, por vezes coração e cérebro são imperativamente antagônicos. Como compreender a complexa linguagem dos pulsos coronarianos através das leituras de fórmulas que os impulsos elétricos cerebrais nos fornecem? Como pretender decifrar um conflito que, provavelmente, deu origem à condição em que o homem moderno se encontra hoje, totalmente oposta à sua natureza de animal racional? O próprio termo ‘animal racional’ já é um despropósito porque a partir de um suposto momento em que passamos a utilizar o mais antigo dos analogismos para tentar expressar nossos desejos e frustrações, entramos também em desarmonia com nossos instintos, fato que nos obrigou a evoluir e não por uma questão de mera sobrevivência, mas pela força da ambigüidade do embate interno que se insurge na alma do homem.

Alma? E o que é a alma fora do contexto das religiões e doutrinas? Será o básico em oposição ao rebuscado? O metafórico explicando o exato? O sanguíneo colidindo com o elétrico? O pulso contra o impulso? Ou simplesmente o coração como o anátema do cérebro? Eis aqui o nosso combate mais antigo; a nossa desgraça e a nossa salvação. Eis a nossa evolução. Deus e Darwin no mesmo corpo. O certo e o incerto; o bem e o possível na mesma carcaça. Eis o homem e esta é a sua batalha, o que nos difere radicalmente dos animais, agora sem paradoxos. E tanto nos diferencia que se fossemos oriundos de planetas diferentes seria até aceitável, porém, decepcionante quando de pensar se vive, porque quando o sol avermelhe não deixaremos rastros visíveis exceto a intangibilidade da nossa complexidade, herança que se perpetuará pelo desconhecido, quem sabe reproduzida à revelia do nosso saber pelas fronteiras que não conseguiremos jamais alcançar enquanto raça.

...é também nosso maior embate...

Nestes dias de materialismo científico, onde coragem se confunde com racionalismo, ouso afirmar que o estudo de caso, comum enquanto exercício acadêmico poderia ser prática constante dentro de cada célula, de cada habitáculo da nossa espécie no que refere à pura e simples convivência, abrangendo questões que concentraram e ainda concentram boa parte da nossa vã filosofia social, revisando as bases mesmas de uma organização que busca novas sensações que, de mais a mais, possam reinventar a velha fórmula basilar de uma sociedade caduca.

Não fosse assim, uma das tentativas de resposta para essas perguntas pode residir na diferença existente entre espécie e condição. Como homens, deveríamos estar satisfeitos com a forma em que estamos organizados? E como seres humanos? Esta é a questão, o ser ou não ser shakesperiano que nos leva a cometer os atos mais nobres e as atrocidades mais vis contra nossos semelhantes e até contra nós mesmos. Quando atingimos o ápice em termos de sucesso naquelas metas impostas pela razão, acreditamos ter erigido um muro entre nossa objetividade programática e nossa eterna insatisfação existencial. O coração dita o ritmo, no entanto, pensamos tê-lo controlado pela força das coisas, palpáveis ou impalpáveis, que conseguimos obter sob a batuta do modo operacional de convivência supostamente organizada que conhecemos.

...somos frágeis e complexos...

Não obstante, essa organização é o gelo fino do imenso lago congelado do domínio humano sobre a terra. Esse gelo tem vários pontos frágeis e quando se rompem atingem até as camadas mais grossas, mais estáveis da supercivilização. Nem preciso exemplificar para me fazer entender, pois para tentar frear as rachaduras fomentamos divisões entre nós mesmos, tão iguais que somos, e esses paliativos muitas vezes se erguem na forma de muros, tão ineficientes quanto evaporáveis. E de cada lado sempre ficam coração e cérebro, invertendo constantemente essa definição anatemática de acordo com a visão de quem olha de um lado ou do outro. Podemos até nos surpreender com essa barreira entre pulso coronariano e impulso cerebral ao constatar que é sempre mais imponente do que se previra, embora ela também possa ser destruída rapidamente; basta com que se atinja um objetivo ou se procure por um novo. A questão não é o que vai destruir tal muro e sim como ele irá tombar.

Esse ‘tombo’, essa ruptura é nada mais que a representação da nossa vontade ao nos valermos da razão para determinar novos rumos, para sanar conflitos que se resolvem na medida em que amadurecemos e aprendemos a selecionar as rusgas que não valem a pena ser mantidas em prol do sucesso material. E quanto mais bem sucedidos materialmente nos tornamos, mais nos afastamos do ser original, do eu essencial. Até que ponto o sujeito pode avançar sem deixar de ser essência? Até quando é possível fugir da metáfora natural, do apelo do ‘coração’ – agora tratado entre apóstrofos – em prol dos desígnios da ‘máquina’ perfeita da razão?

...perseguimos o caos incessantemente...

No caminho da máquina propriamente dita há sempre um homem e há um homem na sua origem. O homem é o criador da máquina tecnológica, o chefe, o patrão. Marx escreveu que, como o operário foi degradado a ponto de tornar-se uma máquina, a máquina pôde se apresentar como sua concorrente. Essa relação é entre entes diferentes e não faz parte da natureza, assim como não faz parte dela a aceitação e posterior manipulação da realidade por parte do homem netamente racional. Entretanto, onde há um homem racional também existe, no mesmo habitáculo, um homem natural na disputa pela hegemonia do ser, uma disputa que se dá no interior de cada ser humano e não entre o homem e seu meio. Um é regido por impulsos cada vez mais pré-programados por ele mesmo e o outro é impelido por instintos complexos e difíceis de dominar, de sobrepujar ou mesmo determinar.

Por sobre essa ‘inequação’ fora moldada a condição humana, fruto de uma inter-relação extremamente conflitante entre natureza e criatividade. Quase todas as relações que conhecemos são forjadas sobre pilares mutantes, instáveis, e são elas o objeto de estudo oculto da maioria das ciências, pelo menos das que irão sobreviver às mudanças que, como sempre, hão de se impor. E se surgem cada vez mais e mais dúvidas sobre o acerto, precisão, importância, relevância, veracidade, aplicabilidade e até praticidade de toda filosofia gestada no cérebro do homem quando estas são submetidas ao filtro ambíguo do coração, como se supõe que cada certeza que hoje fecundamos feito ovos de dinossauro num ninho aquecido não seja a grande dúvida do dia seguinte?

...sem conhecer as consequências...

Nada do que foi exposto são certezas, pois não creio em certezas, creio em escolhas. Acredito em coisas que são próprias do homem enquanto espécie e, principalmente, enquanto indivíduo. Nossas escolhas nos afetam e também afetam os que estão ao nosso redor de maneira incisiva, embora nunca definitiva. Mudamos conforme os tempos e também conforme nossa situação em cada momento.

Sobretudo, é bom dizer, creio no desequilíbrio constante entre razão e emoção e em toda a analogia que deriva desse intrigante binômio. Se nos pusermos a pensar de verdade, quase tudo que realmente importa nesta vida nasce desse desequilíbrio, desse caos por vezes profano e por vezes divino. É nesse caos que o homo erectus mergulhou ao evoluir para homo sapiens e posteriormente o que somos hoje. Os séculos passaram e o mesmo caos que fazia nós na mente dos homens das cavernas enquanto apreciavam o fogo continua assombrando-nos quando observamos o resultado da obra do homem. Quantos somos assombrados por esse caos e por quantas vezes ao longo da vida isso acontece? Eu mesmo vivo mergulhado nele e sei que esse fantasma me torna cada dia mais humano.

...e isso nos define como humanos.

Publicado em junho 30, 2011, em Atualidade, Reflexão e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 19 Comentários.

  1. Nem eu entendi o quis dizer com esse texto…acho que exagerei no cigarrinho de palha de milho…:mrgreen:

  2. boa noite bidart, vc está mesmo inspirado, emplacou em dois dias seus textos extremamente curtos.

  3. Eduardo Casola Filho

    Bidart e outra reflexão do ser humano. Esse é o espírito!

  4. sydnei_alves@hotmail.com

    Já que os textos do Bidart são feitos, presumivelmente, no banheiro, (ele é réu confesso nisso) acho que vou comprar um netbook para ler os textículos (arg) dele confortavelmente assentado no meu “bidet”.
    Zuação à parte, parabéns moço pelo tempo, talento e texto produzido. Abração.
    Mas alguém poderia assumir o falando difícil? Essa parte é mt importante para morrer de inanição, ou teremos que admitir que não há ninguém no buteco que dê conta deste recado?

    • Eduardo Casola Filho

      Neste quesito, acho que o Bidart mata a pau! No bom sentido, é claro!

      Mas a gente se vira como dá. E tem aquele espaço onde quem quiser postar pode mandar sua sugestão. Só que vai para o email do Trapizomba, que está out nestes últimos dias, mas deve voltar logo.

    • HUÁHUÁHUÁHUÁHUÁ!!!!!!!!!!!!!! Deixa os meus ‘textículos’ fora dessa!!!:mrgreen:

  5. Emerson Crisostomo

    Parabéns pelo texto, ótima leitura.

  6. Ei bro,
    Manda pra ca oque tu fumou que essa é da boa, to precisando pra entender esse post
    Abraços galerinha malvada e viúva

  7. Kct Bidart tu é um Uruguaio Rio Grandense meio abaianado pow!!!
    Filosofando a la Caê hehehe!!!

    Eu depois de duas leituras consegui entender pouco o que tu escreveu, mas essa confusão entre o “sentimental” e o “racional” é infinitamente maior do que o teu texto 😛

    • Acho que neste post o Bidão se entregou definitivamente. Doravante acho que ele e o catito são a mesma pessoa em momentos diferentes. Pode isso Arnaldo?

  8. “Nada do que foi exposto são certezas, pois não creio em certezas, creio em escolhas. Acredito em coisas que são próprias do homem enquanto espécie e, principalmente, enquanto indivíduo. Nossas escolhas nos afetam e também afetam os que estão ao nosso redor de maneira incisiva, embora nunca definitiva. Mudamos conforme os tempos e também conforme nossa situação em cada momento”.

    Por estas e outras incertezas é que escolhi encurtar o caminho e optei por ter a Bíblia como livro de cabeceira. A paz do Senhor, irmão.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: