Meninos e meninas


 

por Pedro Bilal


Espiem só...

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou”, era o ‘slogan’ do Renato Russo e sua legião de notáveis, quase um libelo musical revelador daquilo que nunca quiseram esconder: a pansexualidade latente de uma geração em busca de liberdade.

Ou seria em busca da aceitação da bissexualidade?

Tanto faz, porque quando “Meninos e meninas” corria o Brasil, não havia a mesma diversidade que temos hoje.

Ser gay? Não, que é isso!? Sergei só o Bubka com sua vara de seis metros ou o célebre dinossauro do rock brasileiro. E pra saber quem são eles só recorrendo ao Google. Aliás, melhor para o Sergei músico, porque as artes sempre foram o refúgio das minorias.

Já os esportes…

Ruud Gullit só assumiu de fato sua condição homossexual após pendurar as chuteiras, e estamos falando da Holanda! Pelo menos eles contam, hoje, com um grande treinador em suas fileiras e é por isso que pergunto até quando forçaremos atletas homens e mulheres ao ‘enrustimento’; a guardar segredos de liquidificador ou de brokeback mountains?

Eu sei que tem piloto gay na F1. E como não ter? Sempre teve, aliás. Contudo, boiolagem combina com velocidade?
Aí depende. Pergunte ao MC Créu em que velocidade e eu tento responder se combina.

Nico...

Para os fãs, pilotos são um tanto quanto másculos, com ‘M’ maiúsculo; vejam só suas máquinas que com amor, isto é, com virilidade são cultivadas, embora nos boxes das equipes não haja armários cor-de-rosa prontos para liberar borboletas do seu interior.

Mas a vida ensina e a língua é o chicote da bunda.

Eu bem que te avisei, Nelsão. Você sabia que estava jogando todas as cartas, todas as fichas quando, boquirroto, dizia que Senna não gostava de mulher. Você disse no seu último comentário sobre o assunto, antes de ser traído pelo destino: “Senna usava o doze porque só era meio veado!” Pois bem… O feitiço virou contra o feiticeiro!

Claro que Ayrton, com seu jeito reservado, metódico, pragmático até, levantava suspeitas dos machões sujos de graxa. Jim Clark, com toda sua sofisticação e concentração também levantou, embora nunca tenha aparecido no paddock portando saiote escocês, o emblema sagrado das highlands de onde era oriundo.
James Hunt e o episódio do beijo gay então? Nem me fale! (De Nico Rosberg melhor nem falar).

Acho que a famigerada regra que imprime ao macho típico, trejeitos etruscos e modos discutíveis – leia-se, peidar, arrotar e coçar o saco – influenciou de forma profunda a opinião dos piquetistas contra os sennistas, sob a batuta do irreverente Nelsão.

Ah, Nelson…
Até concordo que Ayrton foi um canalha com a Lilian. Usou a coitada e depois a descartou como um copo de plástico.

Vá lá, aquela sunguinha vermelha e as histórias do tal ‘amigo de adolescência’ são estranhas mesmo, mas isso não prova nada.
Ou prova?

Ah, Nelson…
Imagine se seu xará mais famoso tivesse escrito histórias sobre paixões avassaladoras entre gente do mesmo sexo?
Certamente, num desses hipotéticos enredos, haveria lugar para um jovem oprimido pelo pai; quem sabe envolvido com um homem mais velho, substituto dessa acachapante figura masculina em sua vida ou, junto com tudo isso, uma carreira promissora e um chefe tirano praticante de assédio moral…quem sabe?

Uma mão, sete títulos

Ah, Nelson…
Em vida, seu xará foi atacado: imoral, pornógrafo, subversivo e reacionário ao mesmo tempo. Aquele, tão genial quanto você, Nelson Rodrigues, resumiu assim a luta da vida e da obra dele: “A razão é todo um maravilhoso esforço; toda uma dilacerada paciência; toda uma santidade conquistada, toda uma desesperada lucidez”. Isso no Brasil, provavelmente o país mais irracional do mundo.

Ah, Nelson…de certa forma, você, algoz verbal dos seus desafetos e até de ex-afetos, foi também atacado, subestimado, preterido pelos fãs brasileiros em prol do rei do marketing, do veado, do pagante de modelos. Então você tinha lá suas razões, ora, pois, para dizer o que dizia.
Dessas e outras injustiças que lhe fizeram, você se vingou com crueldade…é…foi bem cruel da sua parte dizer verdades na cara dos microfones de alguém, sobre qualquer um.

Não obstante a vida, complexa como só ela é, criou um enredo distante da mente do Nelson dramaturgo e do Nelson piloto. Se Ayrton foi supostamente punido com a morte prematura por rejeitar um igualmente suposto filho ainda no ventre da mãe, você, Nelson, o mais veloz dos mecânicos, foi punido com a difamação pública do seu jovem filho piloto nas mãos de um boquirroto bem mais cruel do que você jamais sonhou ser.

Até tu, Mark?

Cheio de incoerências, de contradições, de buracos negros, de supernovas, o obscuro episódio ‘cingapuriano’ expôs uma trama digna de filme de espionagem. Mas esse filme forçou sua história alguns degraus abaixo, pois há maneiras mais fáceis de expor-se ao ridículo que não requerem prática, oficina, suor. Maneiras mais simpáticas de pagar mico e dizer: “olha eu aqui, sou bom, não sou meu pai, mas me amem, por favor!”

Pois é, houve quem se prestasse a esse papel esdrúxulo, e esse alguém foi seu filho.

Ah, Nelson, esta vida é um punhal com dois gumes fatais: não falar é sofrer; falar demais é sofrer mais.

“Quero comer bolo de noiva, puro açúcar, puro amor carnal disfarçado de corações e sininhos: um branco, outro cor-de-rosa, um branco, outro cor-de-rosa…”

Você, que sempre jogou purpurina para estereotipar de rosa o cinza da velocidade dos outros, também sempre esteve em destaque e prego que se destaca merece martelada; até nas questões de foro íntimo.

Quem sabe, entre tantas pressões que o seu sobrenome impôs àquele jovem guri, não teria surgido uma voz madura, suave, paternal, e essa voz cantarolava ao rapaz: “Vem comigo procurar algum lugar mais calmo, longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita (…) e eu gosto de meninos e meninas…”

Assim não dá, James

Vá saber…

PS: Hoje esse blog está fazendo 1 mês de vida! Obrigado a todos que puderam fazer deste blog uma realidade. Valeu galera!

Publicado em abril 3, 2011, em Diretoria, F1 e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 13 Comentários.

  1. Eduardo Casola Filho

    Huahauahuauhahahuuahhuahuahuahua

    Bidart tava inspirado…

  2. Nao sabia que o James Hunt tinha comido a Monique Evans…

  3. Sensacional posto, Bidart. Ta certo que vou ter que ler mais umas 3 vezes para entender 30% do que vc está querendo dizer ai, mas eu curti o post.:mrgreen:

  4. Quanto ao Senna…teve um ano que ele saiu de férias com o principe Albert de Mônaco, aquilo caiu mal pra caceta…😛

  5. Eduardo Casola Filho

    Infelizmente ExcRusiva péssima de dar.

    Grave acidente na Copa Montana, categora de acesso da Stock, na mesma curva do Café, onde 3 anos atrás morreu Rafael Sperafico, batida entre Pedro Boesel e Gustavo Sondermann.

    http://globoesporte.globo.com/motor/noticia/2011/04/gustavo-sondermann-e-pedro-boesel-se-envolvem-em-grave-acidente.html

    E por via Twitter o pior foi confirmado: Faleceu Gustavo Sondermann.

  6. A Stock Car só representa o nosso padrão de segurança… Zero.

  7. Parabéns ao Blog!

    Excelente texto, cabra!

  8. Tenho dó dos Nelson’s nesta história do cingapurate, mas o pai recebeu em vida o troco das asneiras que falou. Fora isso, gostava dele como piloto até a F Indy moer o pé dele em Indianápolis. Mais uma vez está comprovado que em boca fechada não entra mosquito.

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