Minha quase grande mentira: reflexos, espelhos invertidos, câmeras, um Ayrton Senna que nunca foi da Silva e um título à moda vlecekiana


Cagar não é preciso

Escrever é preciso, cagar não é preciso

Se fosse fácil ser quem se quisesse ser, eu tentaria ser um eu mesmo melhorado. Imaginem como seria nossa vida se, munidos do poder de retocar a maquiagem do passado, caminhássemos lado a lado com aquele espelho invertido da câmera de mão, aquela com a qual é possível filmar a si mesmo, olho esquerdo enfrente ao seu oposto, a mais perfeita artimanha para ludibriar a mentira do reflexo.

Sim, o espelho mente. Por si só é um falsário; a própria iconoclastia da enganação. Nem sólido ele é, pois flui com o tempo, confronta clones replicantes que volta e meia remetem a uma imagem avessa coisas que sabem ser impossíveis.

Possível é ser e num instante não ser mais. Viável é ver e num segundo continuar vendo, embora não a mesma coisa. Hoje olhei um espelho e eu não estava lá; só havia um eu piorado.

Maldito Orwell e seus bichos fedorentos. Sempre preferí JD Salinger e Jack Kerouac mas, mesmo assim, uma droga de Big Brother é minha casa, minha rua, meu trabalho, minha alma e minha ‘altervida’ virtual.

Para as pequenas telas, amigas recentes, contei histórias que nem sempre sabem ser uma verdade absoluta. A vocês, meus pequenos companheiros de solidão intimista, contei piadas, causos, galhofas, fanfarronices. Abusei do dom da escrita intuitiva para maquiar meu personagem real, meio niilista, meio kafkiano; apenas um tosco fronteiriço e latinoamericano com conta estourada no banco.

Como num drama maniqueísta, desfilei com preferências perfeitas, convicções mordazes, certezas flexíveis e dúvidas urgentes. Como numa entrevista de trabalho, fui o melhor que pude ser na hora do papo-cabeça, do conselho emessenista (palavra nova, inventada agora, do anglo-saxão ‘emessenar’; moderno ato de filosofar online, conectado, mascarado), do silêncio das palavras digitadas.

Ah, se fosse possível retocar os atos e atitudes tomadas de assalto, recontar as cenas da vida de acordo com a informação presente, atual…porém, qual é a razão dessa lengalenga prosaica? Certamente não vim aqui para contar uma nova história e sim remendar uma antiga, mal contada ou quem sabe sugerida convenientemente com o intuito de forjar uma imagem, um modelo, enfim.

A título de curiosidade, nos pampas temos um período do ano o qual chamamos ‘Veranico de Maio’, um oásis de calor dentro do outono frio da campanha – muitas vezes bem mais frio que o próprio inverno. Essa época é muito celebrada pelos gaúchos por serem os últimos dias quentes antes da primavera seguinte e lembro que 1994 fora um ano de temporada outono-inverno gelada. Na Serra Gaúcha nevou muito e a Região da Campanha congelou naquele julho.

Lembro também que o Veranico de Maio começou cedo, já no primeiro dia do mês, aliás, uma porcaria de domingo com sol quente que ‘assassinou’ um feriado honesto. Eu trabalhava num free shop no Uruguai, de segunda a sábado, manhã e tarde. Tinha 21 anos e estava na plenitude da minha forma física. Modéstia à parte, eu era um cara bonito, pelo menos mamãe sempre disse isso. Tinha uma noiva – sim, com aliança e tudo –, embora flertasse (às vezes mais do que isso) com todas as gurias que estivessem ao meu alcance.

E aquela noite de sábado, 30 de abril, havia sido ‘ducaralho’! Saí cedo da casa da ‘oficial’ e caí na gandaia. Encontrei um parceiro com duas amigas, lá pelas cinco da matina, e pegamos a estrada rumo à vizinha cidade de Tacuarembó (110 km) para assistir uma ‘corrida de submarino’ num lago de lá. Não perguntem o que é isso. Detalhe (não sórdido): fomos a bordo de duas motocas; meu amigo numa reluzente RD 135, 1987, amaciada nos pegas; eu, na minha humilde e recém adquirida CG 125, 1988, uma tranqueira. Voltamos mais ou menos ao meio-dia de domingo e, quando cheguei na casa dos meus pais, meu irmão do meio, de 19 anos, veio falar comigo quase chorando: “Tu não soube o que aconteceu? Senna morreu!”

Eu estava meio tonto, de ressaca, com uma desconhecida na garupa, louco pra tomar um banho e ‘deitar o cabelo’ (na época eu ainda tinha).

“É? Hoje? (bocejo) Bah! Que cagada! Escuta, tu já recebeu? Me empresta algum que eu estou quase sem gasolina…ah, morreu de que?”

Ele me contou, emprestou o equivalente a uns R$ 20,00 de hoje, eu liguei a moto, deixei a desconhecida em algum lugar que não me lembro e fui para o centro da cidade, beber cerveja.

Enfim, textos como “Ayrton do Mundo” podem ser apenas um desencargo de consciência. Não que houvesse a obrigação de chorar a morte dele como de alguém próximo, mas Senna fora meu único ídolo de infância e adolescência. Fui sentir o ocorrido ao ver as imagens do enterro.

Naquela época, era difícil ser dramático – os hormônios não deixavam – e eu, que nunca fui um sujeito que chorasse pelos outros, contudo, aos poucos fui tendo consciência de que minha frieza quanto a morte de Ayrton Senna (‘Silva’ o cacete, porra! O cara gostava de ser chamado assim e esse era a merda do nome dele! Ponto!) marcara uma ruptura definitiva com um outro eu, muito mais sincero e essencial que este que voz escreve, hoje carregado de informações que mais contaminam do que esclarecem.

Há pouco, uma querida amiga emessenista me definiu como ‘sentimental’ e isso me surpreendera. Acho que sou mesmo frio em certos aspectos, apesar do sangue quente e da pouca paciência. Quem sabe a chegada de Maria Julia em minha vida tenha mudado em mim muito mais do que eu poderia admitir. Ou quem sabe estou ficando velho. Aquela frase de almanaque que diz que a vida começa aos 40 deve ter um fundo de razão. Quero melhorar meu relacionamento com meus semelhantes. Preciso me reclicar e nesse quesito não sei até que ponto a Internet ajuda ou simplesmente atrapalha.

Agora estou aqui, retirando uma das minhas muitas máscaras. Que caiam todas de uma vez, para que nenhuma mentira íntima se mantenha grande o suficiente para quebrar meu espelho invertido. Que todas as mentiras sejam quase mentiras, seja lá o que isso signifique.

Ou não.

por Bidart, o filósofo

Publicado em março 19, 2011, em Diretoria e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 18 Comentários.

  1. Quem tirou a foto? Dona Cláudia?
    HAHAHAHHAHaaaaa

  2. Não tô nem aí pro seu texto….pode contar como é a corrida de submarino! Agora!!!

  3. Quando o Senna morreu eu estava em Curitiba. Tinhamos feito um show na noite anterior e tinha ido dormir tarde pacas. Mas eu e meu companheiro-de-quarto, o grande Marcelo Sussekind, acordavamos sempre para ver as corridas, cansados ou não.

    Serviço de quarto chamado, café-da-manha a caminho, ligamos a TV (nem sai da cama).

    Quando veio a batida, fui otimista, apesar de ter notado que a porrada foi muito parecida com a do Piquet 2-3 anos antes. E a dele foi foda. Marcelo imediatamente disse: “Fudeu!” Eu falei: “Calma, não foi tão foda…”…Eu estava errado…

  4. Eduardo Casola Filho

    Bidart e sua filosofia de banheiro…😆

    Mas o post foi legal.

  5. Cristiano Estolano

    Caro amigo “brasiguaio”,

    Novamente excelente texto… só um detalhe: no título, o correto seria à moda vlcekiana e não vlecekiana.

    É sério que o GD não sabe o que é corrida de submarino? Acho que ele tá de sacanagem…

    Abs (lava essa mão e desinfeta o laptop, porra!)😀

  6. Cristiano Estolano

    A propósito:

    Alguém tem o contato do Vodka? Ele apareceu no último GPChat no ano passado e acho que sua contribuição seria muito interessante no nosso botequim virtual…

    Abs

  7. Xará, corrida de submarino é foda, mas vc cagando é pior ainda, o imagem escrota.

  8. Eduardo Casola Filho

    Duas ExcRusivas:

    1 – Cadeira para video game da Red Bull. Irada!

    http://www.techtudo.com.br/jogos/noticia/2011/03/cadeira-red-bull-racing-f1-playseat-agrada-aos-fas-de-games-de-corrida.html

    2 – No blog do Ico, um piloto novato da Indy que em 2007 imitou o Raikkonen. Só faltou a garrafa de vodka na mão!:mrgreen:

    http://blog-do-ico.blogspot.com/2011/03/tv-blogo-james-hinchcliffe-imita-kimi.html

  9. Belo texto Bidart, tirando o “nariz de cera” monstruoso… hehe…😀
    Devemos aceitar que simplesmente mudamos, rapaz. E graças a Deus mudamos. Imagina que saco dez anos depois vc se dar conta que parou no tempo, que fora incapaz de aprender com erros e acertos. E na condição de falíveis, as vezes metemos os pés pelas mãos. O importante é errar ou acertar com as melhores intenções possíveis. Aí sim, crescemos, evoluímos. Seu texto ainda dá a possibilidade de outros desdobramentos possíveis, mas que o trabalho (sim, trabalhando no domingo) me impossibilita no momento.

    Ainda sim fiz questão de dar uma passada por aqui e deixar meu abraço e minhas saudações pelo texto. Beijão!

    • Patrick Har Alves

      Amiga fufeira thali a quanto tempo não vejo vc dar o ar da graça tanto no formulauk ou aqui!!!!!! Quando vieres visitar juiz de fora não deixe de avisar amiga sumiu do msn tbn!!!!!!!

    • Fala, guria! Valeu pelo feedback. Nada como um retorno sem cheiro de cueca suja…
      Falando sério, a verdade é que só vemos o que queremos ver e nem sempre somos quem queremos, apenas quem podemos ser (tanx Engenheiros do Havaí). A vida é curta demais e por vezes ela acontece enquanto perseguimos a perfeição, coisa que jamais será alcançada. Eu fui uma vítima dessa obsessão, além do medo de fracassar que só me fez perder um tempo precioso. Minha filha veio para ser a redenção de um sujeito até bem resolvido, embora muito mal esculpido pelos tropeços. Tem uma clássica do Capital Inicial, ‘Primeiros Erros’, que é um hino dos atrasados desta vida, louca vida, e outra do Pato Fu que diz mais ou menos assim: “Das brigas que ganhei nem um troféu como lembrança pra casa eu levei; as brigas que perdi, essas sim, eu nunca esqueci…”
      O bom e velh rock brazuca também ensina…beijos!

  10. Somos os seres que possuem consciencia da incompletude, do inacabamento, a insatisfação nos impele a seguir em frente.

  11. Cavaleiro que diz NI!

    Como dizia o poeta: Cagar é uma arte profunda: o coco bate na água, a água bate na bunda…

    Um careca feliz por cima. E o outro só sentindo o drama do submundo.

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